sábado, 12 de março de 2022

Lady Gumes apresenta Federico Baudelaire nem um lance de dedos

 



Lady Gumes apresenta

Federico Baudelaire

em

Um Lance De Dedos

 

com quantos silêncios se faz uma palavra oculta mesmo assim as claras foram comidas pelo mar nessas doidas aventuras a baía esplendia com seus morros e enseadas seriam talvez quatro da manhã quem foi aos infernos sem estar iniciado e purificado será precipitado na lama meus olhos faziam linha reta com a boca de fogo que atirava

salve-me rainha fui atrás e encontrei-a deitada com a saia completamente erguida tinha tirado a calça branca de algodão e a tendência de incorporar a infância mais no corpo social que no grupo familiar o tangenciamento desse nó górdio em que campos alertava para as relações dos dois manifestos que alertavam para as transformações do mundo salve-me rainha porque nessas questões da mulher e do amor a vitória não consiste somente na posse da verdade inquietante que ela com tanto brilho anunciara exigem uma análoga revolução na estruturação da linguagem contra a chibata e a carne podre que se lançava no mar ou então que se passem os olhos sobre a crise messiânica o homem sem profissão o verdadeiro cozinheiro das almas ela estava sentada numa cadeira sempre a mesma situação principalmente nesta peça ademir assunção e sua máquina peluda escrivocando sarcasticamente ao rei portugal saravá saravá meu rei pirei durante dois anos carreguei um inútil luto fechado fazia isso sem a menor cerimônia tensão palavras coisas no espaço tempo para penetrar o âmago sintético de suas virtualidades ao inserir suas reflexões no contexto mais amplo da dimensão sócio-cultural penetrar por entre as malhas das aparências apesar dar diferenças e divergências salve-me rainha aqui ali e acolá em paralelo a tudo isso que se pensa também mas é que ontem quando o trem passou na estação tinha se revelado um hábil condutor de navios tudo isso e maior drama e nada seria se o  rio grande não fosse o lugar do drama que hora desce sobre mim e sob o impacto do ciúme a gente atira em freud e o enigma reflui retruca com um outro refluxo de ciúme que retorna nas ciladas do incesto e se levanta para amaldiçoar o ovo salve-me rainha em torno da mulher os homens formam duas correntes completamente diversas e opostas sejamos portanto pós esses acenos levados de volta ao que nos cabe discernir antes disso porém lembramos ao leitor por falta de um objeto predestinado que deveria ser o próprio ser da sua existência então nos servimos de algumas declarações assim como uma antologia movido talvez por um sentimento de irresponsabilidade lampejos claros sobre uma confusão interminável embaralhando cartas sob a mesa existe realmente uma desordem sem uma única esperança ante a agonia salve-me rainha o ciúme que se tornou minha amante não por fruto de qualquer casualidade passageira ao mesmo tempo que não tem nenhum pudor de lançar mão penetrar fundo no lugar onde ela estava que na primeira oportunidade tive de estar com ela sozinho em casa procurei-a na cama e calmamente seguiu-se a mestra das artes de guerra do amor sob o arco da ponte transversal enquanto explicava que o seu órgão genital não tinha forças para escrever mais um romance para mim 

 

continua na próxima postagem  

 

Artur Gomes

SubVersão PoÉtica

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oficial quase sempre

me dá asco

sou o carrasco

da farda e da gravata

inimigo nº 1

do nó que não desata

 

Artur Fulinaíma

www.fulinaimagens.blogspot.com

terça-feira, 1 de março de 2022

uma outra inquisição?

 

            

            Uma Outra Inquisição?

 

Arthur Soffiatti – Logo de cara, quero declarar que Artur Gomes pode ser considerado o melhor poeta campista da atualidade, sobretudo porque, campista ele ultrapassa os limites do município e é reconhecido nos meios literários nacionais.

Mário Sérgio – (arquiteto pós-moderno) –Sei não, Artur parece meio enganado, enganoso e enganador. Por trás de sua escrita aparentemente revolucionária, esconde-se um poeta convencional que, nem mesmo se afirmou, já revela sinais de uma criatividade esgotada.

Sérgio Provisano – É, estou de acordo. Chega de federika bezerra, lady gumes, e de mocidade independente de padre olivácio.

Mário Sérgio – Não apenas esta fixação, que parece neurótico-obsessiva, mas o uso concreto da página com uma poesia discursiva, mais para o ouvido do que para a vista. Cito alguns exemplos: a palavra grafada em cores, os dois pontos isolados, o emprego de letras maiúsculas, todos eles como recursos que passam despercebidos na oralidade do poema declamado.

Arthur Soffiatti – Já que minha declaração inicial gerou uma discussão sem que fosse esse o meu intuito, requeiro de volta a palavra. Há no novo livro de Artur, um poema de  cintilante lucidez. Trata-se de antiLírica:

 

“eu não soun zen

muito menos zhô

nem tão puco zapa

nem ando na contra¢apa

do teu disquinho digital

não alinho pela esquerda

nem a direita do fonema

vôo no centro viagem

olho rasante miragem

vei pulsante poema”

 

Sem levar em conta seu caráter discursivo, que deve ser discutido, mas não é discutível, estamos diante de um poema-manifesto. Ele explica o alinhamento dos poemas de BraziLírica Pereira : A Traição Das Metáforas pela direita e não pela esquerda. Agora faço questão de ir às últimas conseqüências do que vocês estão falando: nem mesmo o mais discursistas dos poetas pôde, até o momento, prescindir do suporte da página, inclusive da página da tela do computador. E então eu pergunto: por quê alinhar o poema pela esquerda e não pela direita?

Sérgio Provisano – É preciso começar a frase de algum ponto, e nas linguagens gregas e latinas, escreve-se da esquerda para a direita, ao contrário do árabe e do hebraico, escritos da direita para a esquerda, ou do chinês, escrito de cima para baixo.

Arthur Soffiatti – Certo, mas até mesmo o mais empedernido dos poetas clássicos não permanece rigidamente colado à margem esquerda. Há afastamentos progressivos da margem, há escapulidas para o centro, há espaços entre as estrofes, tudo também recurso de escrita que desaparece na fala. Só há uma forma de livrar-se do espaço visual : é recorrer aos registro da palavra em disco ou em fitas magnéticas. Todavia, não é comum um poeta lançar obra sua em disco de vinil ou “laser”, em fita cassete ou em vídeo. Primeiro vem o livro. Em síntese, não nos libertamos do livro e considero ótima essa prisão.

Mário Sérgio – Dei uma olhada em BraziLírica Pereira : A Traição Das Metáforas – Parece uma homenagem ao escritor paulista Uilcon Pereira. Curioso é que, num sebo da velha rodoviária de Campos, encontrei um livro de Uilcon Pereira à venda, com uma dedicatória a Artur. O cara gosta tanto do Uilcon que vendeu um livro dele com dedicatória! Que homenagem é esta?

Sérgio Provisano – Você é bem campista mesmo, Primeiro, deu uma olhada no livro, não o leu. Segundo,  tem a impressão de que presta uma homenagem . Terceiro, vem com um argumento externo ao livro para julgar sua qualidade. Artur também se apropriou de livros de Oswald de Andrade na biblioteca do Soffiatti. Vá lá que tal gesto seja considerado uma falha de caráter, mas ele não depõe contra a obra. Se caminharmos por essa trilha, a obra de Wagner deve ser jogada no lixo.

Mário Sérgio – Estou aqui a recordar Prata Tavares, para quem Artur Gomes não tinha cultura poética. Ele ia mais longe, inclusive sustentando que Artur, mesmo com seus poeminhas, não poderia ser mais considerado um poeta, pois que abandonava a palavra. Acho que o Prata tinha razão quanto aos dois pontos.

Arthur Soffiatti – De fato, Prata Tavares externou esta opinião a mais de uma pessoa com sua inconfundível voz fanhosa. Era o julgamento dele com relação a um poeta jovem que talvez não tivesse lido o suficiente de poesia. Tal julgamento, porém, não invalida  o talento. Mas, atualmente, convenhamos, Artur demonstra cultura poética. Em BraziLírica Pereira, além de inspiração, há cultura poética. Encontramos nele achados, como: “drummundo pra todo canto”, “esse Não ç dilha” “cerVeja agora” ou esta genial:

 

“salvador não é dali

a mulher  que quero mesmo

é um dedé que não dadá

bia de dante do inferno

itamarati Itamaracá”

 

Cumpre observar, também que o livro está repleto de referências a Carlos Drummond de Andrade, Paulo Leminski, Mallarmè, Chico Buarque de Hollanda, Murilo Mendes, Clarice Lispector, Oswald de Andrade, Ana Cristina César, Ferreira Gullar, João Guimarães Rosa, Torquato Neto, Ezra Pound, Simone de Beavoir, Sartre, Sousândrade e até Marcabru. Vocês sabem quem foi Marcabru, poeta provençal hermético e soturno? Creio que o Prata teria outro juízo de Artur se vivesse.

Mário Sérgio – E quanto ao fato de Artur não ser poeta por abandono da palavra?

Arthur Soffiatti – Certa vez, Prata escreveu um artigo colocando a palavra como inerente à poesia. Neste sentido, ele ainda admitia o concretismo. Não, porém, o poema processo, que substitui a palavra por signos visuais. Ele se apegava a Pound , considerado um dos maiores poetas do século XX, para ilustrar sua tese de que a poesia não pode abandonar o reino da palavra. Escrevi um artigo longo de bem chato, por sinal, mostrando que esta concepção de poesia acabou quando registraram em signos, sobre uma superfície qualquer, a palavra oral. Nesse momento, a poesia deu seu primeiro passo para transferir-se da boca-ouvido-cérebro para o olho-cérebro, abolindo o intermediário. Mesmo assim continuavam possíveis as leituras auditiva e visual do poema. Mas vejam bem: talvez haja mais relação das escritas pictográfica e ideográfica com a oralidade do que das escritas fonética e alfabética com a mesma oralidade. O contato com o pictograma ou com o ideograma nos remete diretamente à ideia da coisa representada e ao seu enunciado. Um desenho estilizado de uma árvore fala mais rapidamente de árvore do que a palavra árvore, que não tem qualquer semelhança com a coisa representada. Ela apenas nos remete à palavra oral que se refere o objeto. Neste sentido, o poema grafados nos sistemas de escrita ocidental estão mais longe da oralidade que a pictografia do paleolítico superior. O desenho de uma flor fala mais imediatamente de uma flor do que a palavra Flor fala da flor através da imagem. Esta é a primeira forma de escrita que as crianças aprendem. Não é atoa que, mesmo antes de aprender a falar, elas já reconhecem signos. Quando aprendem, as palavras correspondentes vem à boca ao vê-los. Já com os signos usados para indicar o nome do objeto ou de uma ideia, o aprendizado é mais lento. Em síntese, o poema pode usar sinais linguísticos em sua fatura. O próprio Pound, admirado pelo Prata, valia-se de símbolos das escritas ideográficas em seus poemas.

Mário Sérgio – Argumente como quiser, cara, mas minha opinião continua a mesma.

Sérgio Provisano – É, eu também não estou devidamente convencido.

Mário Sérgio – Nem eu.

Arthur Soffiatti – Tudo bem. Que a discussão fique em aberto, mostrando que Artur Gomes é uma figura polêmica de nossa intelectualidade.

Uilcon Pereira – Fiquei daqui um bom tempo, ouvindo vocês nessa fogueira inquisitória. E olha que quem inventou a outra inquisição fui eu. A bem verdade, vocês falam do escultor sem prestar muita atenção às suas ferramentas. Ora essa! Vocês estão como aqueles que pensavam que a obra do Artur Gomes já estava consolidada e definida, em termos de cristalização dos pressupostos, modelos e técnicas. Nos jogos entre oralidade e escrita poética, os novos textos viriam somente aprofundar e desdobrar esses fundamentos, sem renovações estruturais de maior alcance. Puro engano, todavia. No verão de 1996, o exMaluco de Campos abre-nos de repente uma surpreendente face “outra”, absolutamente inesperada e imprevisível. Para nosso espanto meio embasbacado, eis que surge uma boa vintena de experiências – a meio caminho entre poesia e artes visuais - , verbo e recursos plásticos – aproximando material escrito e cores, recortes de papel celofone, fotos, desenhos, tramas, relevos, retalhos de tecidos, superposições, transparências.

Mário Sérgio – Mas isto não é o que ele chama de fase dos “Retalhos Imortais do SerAfim”, em que mais se aprofunda na tentativa do abandono da palavra?

Uilcon Pereira – Podemos considerar mais de perto a fase “outra”, complementária da anterior, jamais contraposta ou substitutiva da estratégia que o caracterizou até hoje: nos “poemas.gráfico.visuais”, como ele intitula em CarNAvalha Gumes este “work-in-progress” – são utilizados lápis de cera, crayon, caneta esferográfica, afiados por suas armas brancas, tesoura, estilete, gilete: o suporte é de papel shoeler ou fabriano, mais raramente cartão tela: nos ofícios bricolagem, mesclam-se letras, frases inteiras ou estilhaçadas, nomes próprios, pedaços de versos, blocos de caracteres impressos ou anotações manuais, sinais de pontuação, resíduos de jornal, pinturas, olhos, panos (atenção, igualmente: nesta arte pobre, de volta a um artesanato bem primitivo, há muita sensibilidade das tesouras, colas, gestos, sinestesias, conexões, transições e cortes abruptos). Sim, os “poemas.gráfico.visuais” de Artur Gomes incorporam acaso, integram o azar, a improvisação e elementos do inconsciente. Organizam-se, porém, a partir de (no interior de) uma só matriz bem definida e simples: campos lúdicos de formatos retangulares, com orientação vertical ou, mais eventualmente, horizontal. E podem, exigem paredes, murais, painéis; a vocação deles vai em direção às galerias, saguão de faculdades ou biblioteca, centro cultural, mostras de poesia visual, grandes exposições de arte. Lugares de vida coletiva enfim, espaço onde públicos vastíssimos podem circular, trocar opiniões, dialogar sem aqueles rigores e solenidades da leitura solitária. Na deriva, saltam das páginas de livros e fazem suas festanças sensoriais, multicoloridas erotisadas, em posições de frontalidade. Assim, desafiam e instigam os leitores/contempladores,  que também os recebem de pé, eretos, olhos nos blocos de efeitos verbo/visuais, aproximando-se ou tomando distância, entre a diversão sem compromisso e/ou atitudes cognoscitivas, estéticas, interpretativas. “todo POEMA tem dois gomes” diz uma das poucas sentenças de sentido claro, legível, contrastando com acumulações de grafites, rabiscos, empastelamentos, caligrafias que já não obedecem aos traçados habituais – enigmas da escritura que se faz imagem e libera suas virtualidades plástico-visuais. Dois Gomes, dois gumes, na interface literatura artes visuais, poesia intersemiótica já se despedindo das formas, tradições, códigos, e suportes mais convencionais, seculares; linguagem nova, escrita especializada, em estado nascente, vinculada aos ícones, manchas,  zonas de cor, planos e eixos da figuralidade; linguagem que invoca necessariamente um gênero de leitura específico, uma atividade do “Vler”, para retomar aqui um conceito por mim formulado em 1973, em tese de doutoramento sobre os enlaces da figuração escrita, percepções imagéticas e leituras simultâneas, conectadamente, indissoluvelmente. “poema continua a ser poema” – eis o segredo dessa investigação de Artur Gomes para quem um poema é um poema é um poema, ainda que aflore em convergência, contraposição ou ar de família, com bandeirinhas do Brasil ou de Volpi, translucidez e opacidade, tecido, arabescos, garranchos, cascatas de papel, amarelo, azul, vermelho, brancuras e negrumes na ordenação global. Poema continua a ser poema, ou volta a ser poesia de alta qualidade, agora entreTecido com outras figuras de fantasia, inserido também nos vastos circuitos ideológicos da sociedade pós-moderna, império dos signos fragmentários e carregados de apelo visual – cartazes, revistas, páginas de jornal nas bancas, capas de discos, logotipos, placas, faixas, luminosos, outdoors, clips, quadrinhos, vídeos, slaides, folhetos, livros ilustrados, joguinhos eletrônicos.

 Paulo Bruscky – Bem, se vocês já leram BraziLírica Pereira : A Traição Das Metáforas, então como não perceberam¿ Me parece haver sempre em Artur Gomes, um jogo de segundas intenções, onde o que é nem sempre é palavra ou imagem e vice-versa, porque pode representar tudo e ao mesmo tempo nada. E isto é incorporação de referências múltiplas adquiridas nestes vinte e tantos anos em que afia suas armas brancas: navalha, gilete, estilete: metáforas para cortar os olhos com imagens e ferir ouvidos com palavras, para ferir os olhos com palavras e cortar ouvidos com imagens, metáforas.

Fernando Aguiar – Li CarNAvalha Gumes, e  confesso que há muito não lia um livro tão instigante, e olha que sou crítico contumaz de poesia escrita.

Leontino Filho – Desde Suor & Cio e Couro Cru & Carne Viva, pude constatar o que é uma poesia nua e crua, e ao mesmo tempo de um lirismo incomum.

Enzo Minarelli – Parece-nos que Artur Gomes calçou coturnos mágicos e como um tigre de botas , com um olhoantena, capta as imagens no inconsciente do ser, como se ao mesmo tempo habitasse nele um coletivo urbano expulso de sua selva natural.  Antropofágico, come e vomita transformando em arte a indgestão.



Artur Gomes

domingo, 27 de fevereiro de 2022

couro cru & carne viva

 


 

TROPICALIRISMO

 

GIRAssóis pousando

nu teu corpo: festa

beija-flor seresta

poesia fosse

 

esse sol que emana

no teu fogo farto

lambuzando a uva

de saliva doce

 

MAGIA

 

quando meto pés

em tuas matas

 

selvagem índio

pássaro animal

 

devasto céus sem ter limites

com poesia sobrenatural

 

OVERDOSE NU VERMELHO

 

retesar as cores

e os músculos

com os dedos agarrados no pincel

 

se faltar carne

para roçar os óvulos

a gente jorra tinta no papel

 

BR – 101

 

ah! meu amor

não te esqueci

ainda procriando no meu corpo

os micróbios do teu sangue

                              enlouqueci

 

GENITAL

 

pasto no cosmo

a soja secular de jardinópolis

onde os discos-voadores

sobrevoam meu nariz

na cara das metrópoles

 

no centro ao sul

os cemitérios

possuem mais mistérios

que a nossa vã filosofia

 

tem um animal de vagina espacial

na poesia

                &

                   e um grande pênis roxo

milenar

             feito aspiral em círculo

preparando imenso orgasmo

pra festejar o fim do século

 

Artur Gomes

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NAÇÃO GOITACÁ

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quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

A Traição Das Metáforas : Uma Outra

 


A Traição Das Metáforas

:

                            Uma Outra

 

para Celso de Alencar, César Augusto de Carvalho e Federico Garcia Lorca em memória

 

há tempos

não escrevo

um poema como esse

:

a formiga carregando folhas lembra-me a máquina de terraplanagem que vez em quando passa na minha rua a carrocinha puxada por um cachorro imagem cibernética estética não é o que me move pra o abstrato do outro lado do espelho atrás da porta do meu quarto ainda guardo  teu retrato em Nova Granada conheci um presépio com duas mil imagens humanas criado pelo mestre Guima que cultivava em sua cabala cento e sessenta e três imagens de Santo Antônio que Hygia Ferreira guardava para o casamento com ela aprendi que o amor mora muito além da casa dos soldados Federika rasgou o vestido de Macabea quando Lady Gumes enfiou a faca no monstro ontem mesmo sonhei com Afrodite tive um surto de desejos gozei no espelho era Cecília quem estava do outro lado  

 

Artur Gomes

Na trilha do fogo

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página oficial no face

https://www.facebook.com/arturgomespoeta



 Dia 31 vamos dançar

pra Yemanjá e Olorum

na hora da partida

de 2021 para em 2022

acabar com o genocida

 

Rúbia Querubim

na trilha do fogo




 quarta-feira de cinzas

 

a janela estava entreaberta

dela desejei as costas nua

do pescoço até a bunda

para penetrar-lhe o anus

até o amanhecer do outro dia

era madrugada quarta-feira de cinzas

de um carnaval

que há dois anos não havia

 

Federico Baudelaire

https://www.facebook.com/federicoduboi



curuminha

para Rúbia Querubim

 

tua pele clara de pêssego

ou mesmo de manga fosse

lembra-me frutas tropicais

com sal e mel agridoce

intenso   sabor tupiniquim

       Clarice Beatriz que fosse

ou mesmo esse anjo SerAfim

que dorme em praias distantes

              e acorda dentro de mim  

 

Artur Gomes Fulinaíma

www.fulinaimicamente.blogspot.com




ainda que seja assim

ainda que seja assado

 

não tenho papas na língua

não tenho  língua nas papas

 

quando me descobri ainda menino saltando muros para roubar mangas no quintal do vizinho ou quando o tasquei fogo no paiol de milho percebi a vida nos trilhos

 

tudo gira tudo rola

pomba gira no terreiro

trepada em pé de carambola

 

e lá vai terminando mais um ciclo ao redor do sol meu pai cavaleiro de Ogum

na terra girou 67 por onde anda não sei deve estar pelas galáxias nas festas de São João Xangô Menino

 

ela vinha

com um copo de vinho

na boca uma língua

de fome

no corpo a carne

sedenta

seis anos para ceder

aos instintos

e dar-me em camas

ela veio vestida de nada

enquanto pra ela escrevia

um bolero blue

 

no poema nada cabe

nem o que sei

nem o que não se sabe

 

que seja por um risco

que seja por um triz

a mulher que sempre amei

não era atriz

era aprendiz de arquiteta

sempre andou em linha torta

apesar de sempre ereta

 

teu corpo

é carne de manga

em meu pênis viril

enquanto sangra

quando beijo tua boca

enfurecido

rasgando por trás

o teu vestido

 

 se tiver que me matar

que seja

se eu tiver que te matar

que morra

em cada beijo que te der

amando

só vale o gozo

quando for eterno

infernizando os céus

e santificando

a boca do inferno

 

com espada em riste

galopamos velozmente

por dois segundos e meio

tua fúria era tanta

que agarrei-me

em tuas crinas

para não cair na lama

mas o amor era tanto

e tanto era o prazer

que quando fomos pra cama

não tinha mais o que fazer

 

ainda que seja assim

ainda que seja assado

a carne seca com farinha

anda muito cara no mercado

 

nasceu uma erva santa em meu quintal nem sei quem jogou a semente se foi algum vizinho ou se foi trazida por passarinho

 

algumas coisas dançam na memória

outras passeiam ou passam e vão desfilar em outras vitrines no tempo do esquecimento

 

enquanto a bahia

se afoga

o genocida nada

 

quando escrevo

com enxada

o poema é mais real

 

uma mistura de cerveja campari vodka com limão picanha assada assim foi meu natal de 2021 para fechar esse ciclo em torno do sol vamos dançar para                  Olorum no dia 31  

 

Ogum não permitiu

que Yansã doasse o coração

                           para Xangô

e deu-se num trovão

pela manhã o seu amor

Oxossi em cada um

 

moram dentro o mar

dois olhos florescentes

por trás desta paisagem

não são olhos de peixe

são dois feixes de luz

dois faróis brilhantes

que olham infinito

desde um tempo outro

mar de outras eras

nem era primavera

aquela vez primeira

nem era quarta feira

na sala de ensaio

diante dos espelho

dois olhos como raios

dentro os olhos meus

que acenderam o fogo

como queima agora

neste mar de Zeus

 

a lavra da palavra quero

quando for pluma

mesmo sendo espora

 

felicidade uma palavra

onde a lavra explora

se é saudade dói

mas não demora

e sendo fauna linda como a Flora

lua Luanda vem não vá embora

 

se for poema fogo do desejo

quando for beijo que seja como agora

 

a poesia é meta física

meta quântica

Itaipu é uma paraíso

dentro do que sobrou

da Mata Atlântica

 

o que existe

por trás da poesia

língua de sal

lambendo a pele  

do amor à flor da pele

toda pele maresia

 

Diador-in

avessa em mim

branquinha como a neve

me leve

para dentro da tua casa

a poesia é o infinito da pessoa

te empresto minhas asas

pare de caminhar  - e voa

 

Afiando a CarNAvalha

 

cocada agora

só se for de coco

paçoca de amendoim

 

cigarro só se for de palha

cacique só se for da mata

linguagem só tupiniquim

 

bala só se for de prata

água só se aguardente

tônica só se for com gim

 

estado só se for de surto

eleição só se for sem furto

brilho só no camarim

 

golaço só se for de letra

Ronaldo só se for Werneck

malandro só se mandarim

 

política só se for decente

partido só sem presidente

governo eu que mando em mim

 

batismo só se for de pia

Congresso só de Poesia

Reinaldo pode ser Valinho

ainda melhor se for Jardim

 

ela me chega assim bailarina

como um tarde de música

envolta em física quântica

etérea qual labirinto

 

para dizer o que sinto

e desvendar teu endereço

procuro em teu livro secreto

palavras que não conheço

 

 

Artur Gomes

na trilha do fogo

www.porradalirica.blogspot.com



ARTUR GOMES – mini Bio

Artur Gomes é poeta, ator, videomaker e produtor cultural. Tem diversos livros publicados, sendo os mais recentes SagaraNAgens Fulinaímicas (Edições Du Bolso – 2015), Juras Secretas (Editora Penalux, 2018) O Poeta Enquanto Coisa (Editora Penalux – 2020 ) e Pátria A(r)mada (Editora Desconcertos, 2019). Prêmio Oswald de Andrade – UBE-Rio – 2020 – Tem inédito: O Homem Com A Flor Na Boca e Da Nascente A Foz : Um Rio De Palavras (livro de memória)

Dirigiu a Oficina de Artes Cênicas do Instituto Federal Fluminense em Campos dos Goytacazes-RJ de 1975 a 2002.

Em 1983, criou o projeto Mostra Visual de Poesia Brasileira e, em 1993, idealizou o projeto Mostra Visual de Poesia Brasileira Mário de Andrade — 100 Anos — realizada pelo SESC São Paulo.

Em 1995 criou o Projeto Retalhos Imortais do SerAfim Oswald de Andrade Nada Sabia de Mim, executado pelo SESC-SP em várias unidades na capital e pelo Estado.

Em 1999 criou o FestCampos de Poesia Falada, realizado até 2019 pela Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima, em Campos dos Goytacazs-RJ

Em 2002 lançou o CD Fulinaíma Sax Blues Poesia , com seus parceiros Dalton Freire, Luiz Ribeiro, Naiman e Reubes Pess.

Em 2021 lançou dois e-books – Poesia Para Todas As Horas e O Homem Com A Flor Na Boca ou O Poeta Enquanto Coisa.

Desde 2007 produz performances poéticas com videopoemas. Em 2021 fez curadoria para a Mostra Cine e Vídeo De Poesia Falada. realizada pelo SESC Piracicaba-SP. Mantém na sua página Studio Fulinaíma de Produção Aidiovisual no facebook o Festival Cine Vídeo de Poesia Falada

https://www.facebook.com/studiofulinaima

Com seu videopoema  Goytacá Boy é um dos poetas que integram a Mostra Virtual de Videopoemas do Projeto Bossa Criativa, Arte de Toda Gente, realizado pela FUNRTE Rio.

Em 2021 integrou a Comissão Julgadora do Festival Cine Urutu, realizado pela Prefeitura de Pindamonhangaba-SP e fez curadoria para o Festival Ecos – Videopoemas, realizado pelo Instituto Federal Fluminense.



 fulinaimicamente 

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Juras Seretas - Artur Gomes

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